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sábado, 16 de maio de 2009

Risco de Enchentes na Bacia do Ipojuca




Por Ricardo Vieira - professor/geógrafo


Vamos por partes

1- O que é uma enchente e por que elas ocorrem?

As enchentes são fenômenos naturais que acontecem em todos os rios, quando um leito natural recebe um volume de água superior ao que pode comportar resultando em transbordamentos. Por outro lado, as enchentes deixam de ser uma calamidade quando (na maioria das vezes) ocorrem como conseqüência da ação antrótipa, isto é, o homem interfere negativamente no ambiente de maneiras variadas como construção de bairros em áreas ribeirinhas, falta de coleta seletiva do lixo, desmatamento e assoreamento das margens dos rios.

2- Porque Gravatá sofre com a enchente do Rio Ipojuca?

Gravatá não é a única cidade que sofre com o transbordamento natural as águas do rio Ipojuca. Basta lembrar que a bacia do rio é considerada a segunda maior do estado, cujas suas nascentes se localizam nas encontras da Serra do Pau D’Arco, no município de Arcoverde. Da sua nascente até a sua foz, o rio corta 24 municípios. Dentre eles, Gravatá.

O antropismo faz-se presente em todos os municípios da bacia do Ipojuca. Aproximadamente 81% da população que vive ao longo do rio (cerca de 600 mil pessoas), localiza-se na zona urbana. Isto significa dizer que o rio sofre ações interventivas humanas muito fortes. O que não ocorre em 19% da população que habita as áreas rurais, onde a cobertura vegetal ainda predomina.

A grande questão dessa ação humana ocorre pelo uso e ocupação do solo desenfreada. São várias as atividades econômicas ao longo da bacia, indo desde a simples ocupação urbana até a policultura e pecuária. Consideremos também que independente do índice pluviométrico de Gravatá ser alto apenas nos meses de junho e julho (segundo o Plano Estadual de Recursos hídricos), o rio sofre ações pluviométricas todas as cidades por onde ele passa.

3- O que está fazendo a prefeitura de Gravatá para evitar maiores transtornos? O que se pode fazer?

Essa é uma questão que eu não tenho respostas substanciais para dar aqui, publicamente. O que sei é que uma equipe da Defesa Civil visitou as casas dos moradores ribeirinhos na última quinta-feira e deixou os mesmos em estado de alerta.

Creio que o interesse dos políticos de Gravatá sobre o assunto, assim como outras prefeituras da bacia do Ipojuca, costuma ser incipiente ou até mesmo inexistente. Existe uma carência de vontade política. Tais prefeitos têm prioridades mais imediatas para administrarem. Além disso, as populações vulneráveis, pobres e pouco educadas não possuem um peso político suficiente para fazerem com que suas demandas sejam ouvidas.

Caruaru é o município que mais sofre com as enchentes do rio, pois é onde está a maior concentração urbana da bacia do Ipojuca. Já foi noticiado pela imprensa que a prefeitura estabeleceu metas em caso de enchente. As metas não foram divulgadas, mas, no entanto, são todas medidas mitigadoras.

O prefeito José Queiroz afirmou que a invasão do leito do rio Ipojuca por empresários ou moradores também reduziu a área por onde a água escoaria. Só gostaria de enfatizar que a própria prefeitura (todas elas) não segue de forma séria aplicar o Plano Diretor Municipal. Outras tantas sequer têm o Plano. Muitas vezes, os responsáveis por fiscalizar fecham os olhos para os grandes empresários ou não permitem que as famílias pobres sejam localizadas em áreas afastadas dos rios e vivam dignamente. Apontar responsáveis da forma que o prefeito de Caruaru apontou é, no mínimo, injusto.

Devemos ser realistas ao enfocar o assunto. Atribuir as enchentes apenas a causas físicas e naturais ou atribuir apenas às questões ecológicas empobrecerá uma análise mais profunda, uma vez que uma gama de fatores contribuiu para o acontecido. É inevitável um consenso de que a bacia do Ipojuca está numa região possui características geográficas que propiciam enchentes, as quais, atrelamos a outros fatores como o significante número de famílias residindo onde deveriam existir matas ciliares, os desmatamentos, a composição variada da maioria dos solos e as alterações climáticas que vem ocorrendo de forma rápida e brusca nos últimos anos facilitaram as grandes chuvas. Além disso, os lixos circundantes juntamente com a água são fatores que devem ser vistos como agravantes e diretamente ligados a todas as conseqüências de uma enchente.

Tudo isso sem falar em todas as perdas pessoais e materiais que qualquer tragédia pode causar. As enchentes podem aumentar o índice de acidentes, tais como afogamentos, lesões corporais e choques elétricos e a exposição à patógenos vindos com a água e ambiente propício para proliferação de vetores de doenças e animais peçonhentos que com a enchente são desalojados de seu habitat.

Para os políticos irresponsáveis, momentos como este servem de trampolim eleitoreiro. Muitos aparecem para criticar governos anteriores e pessoas diversas, posando de semideuses na articulação de promover ajuda aos desabrigados. Estes diriam que tudo isso não passa de uma falácia de um professor de Geografia.

Para aqueles que reconhecem que o planeta precisa ser cuidado e defendido como se fizéssemos por nossos próprios lares, as informações acima redigidas são silogismos de uma realidade próxima, que afeta a todos, indistintamente.


4- Por fim, como fazer frente ao fenômeno enchente?

1- É preciso controlar melhor a utilização das terras, o que implica em planejar a expansão das cidades e a localização das indústrias em função dos riscos. Além disso, tornou-se igualmente necessário adaptar melhor as infra-estruturas: as habitações e as estradas podem ser sobrelevadas, por exemplo.

2- A construção de reservatórios subterrâneos e de barragens é também uma medida aconselhada. O benefício que as barragens proporcionam é duplo: elas permitem controlar as enchentes e armazenar a água que estará em falta durante os períodos de seca.

3- O reflorestamento de solos nus, a vegetalização dos tetos, e a generalização da utilização de revestimentos permeáveis nas cidades permitiriam limitar o escorrimento.

4- E finalmente, a planificação dos procedimentos que precisam ser seguidos em caso de enchente é essencial. As pessoas devem ser avisadas o mais rápido possível e precisam saber de antemão o que elas devem fazer. Cuba implantou uma série de procedimentos eficientes, diferentemente do que ocorreu no Haiti, o que explica as grandes diferenças entre as perdas que foram sofridas nesses dois países.

Há muito mais a ser dito, discutido e definido. A questão das enchentes em nossa cidade, na região e no mundo, é fator que precisa ser estudado de forma série, haja vista que o planeta tem passado por bruscas transformações climáticas que influenciam consideravelmente no ciclo das águas, em todas as partes do mundo. Só espero que não seja preciso uma grande catástrofe da proporção que aconteceu em Santa Catarina, para acordar os nossos legítimos representantes políticos.
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