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terça-feira, 12 de maio de 2009

MÃE, NUNCA VI UM ANJO NEGRO


"Mãe, nunca vi um anjo negro. Não há anjos negros, mãe?
Todos os anjos são brancos. Não há anjos como eu?
Olha, todas as asas são brancas. Como os anjos que estão no céu.
Mãe, eu nunca vou ter asas? Não há anjos como eu?
Mãe, não há meninos negros anjos, mãe?
Mãe, onde fica o nosso céu?
Queria ser um anjo mãe.
Não posso... Não há anjos como eu."
(Poema da Encandescente)

13 DE MAIO - ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA?


Desde o dia 13 de maio de 1888, a forma de escravizar vidas humanas mediante a quantidade de melanina em sua pele mudou de formato.

Trocaram as senzalas pelas favelas, o chicote pela fome, o tronco pela exclusão e a alforria pelo preconceito e discriminação.

Uma das grandes (se não a mais importante) armas contra essa forma camuflada de escravicionismo é a educação. Diversas Leis foram criadas no país, especialmente a partir do século XX, quando o movimento negro se organizou e adquiriu mais notoriedade, na tentativa de combater a discriminação sofrida pelos negros.

A Lei mais recente é a 11.465/08, que institui no currículo escolar o ensino da Cultura Afro-brasileira, bem como da Cultura Indígena. Embora seja obrigatório, o ensino destas culturas muitas vezes (na maioria) é citado apenas em datas comemorativas, como este 13 de maio, de forma descontextualizada e superficial, quando não, com informações ultrapassadas, algumas equivocadas e, sempre aluzentes ao passado.

O poema de Castro Alves, todos já conhecem (pelo menos deveriam), o texto sobre a Lei Áurea é citado desde a mais tenra infância, diversos filmes e documentários causam comoção em boa parte da sociedade dita branca, então, por qual motivo ainda há tanto preconceito para com os grandes responsáveis pelo desenvolvimento deste país??

Será racional condenar e esteriotipar uma pessoa por conta da cor da sua pele? É possível que alguém credite que MELANINA influencia no caráter de alguém, em sua moral, índole, inteligência, capacidade humana e intelectual??

Não creio ser necessário dar uma aula de BIOLOGIA para apresentar o papel da melanina no corpo humano, seria subestimar demais a capacidade de compreensão das pessoas (embora alguns de fato mereçam!), contudo, vamos apresentar uma discussão pelo ponto de vista pedagógico, como parte de nossa contribuição e dever de extrair do seio da sociedade este CÂNCER chamado PRECONCEITO DE COR.


Olhar enviesado

Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel frequentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em "faits-divers", em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.
Ser negro no Brasil é, pois, com freqüência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver "subido na vida".

Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.
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Artigo escrito por Milton Santos, geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Fonte: Folha de S.Paulo
Adapatação: Sunamita Oliveira
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