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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

FUMO E CHOCOLATE: OS ÍNDIOS COLONIZARAM A EUROPA!


Poder e prazer

EM ENTREVISTA À FOLHA, A AUTORA DE "DÁDIVAS SAGRADAS, PRAZERES PROFANOS" DEFENDE QUE O TABACO E O CHOCOLATE INVERTERAM O SENTIDO DA COLONIZAÇÃO AO IMPOR AO OCIDENTE ELEMENTOS DA CULTURA DA AMÉRICA



O chocolate era algo associado à elite; já o tabaco permeava todas as classes e gêneros: homens e mulheres da cidade e do campo, pobres e ricos o consumiam 

ERNANE GUIMARÃES NETO
DA REDAÇÃO

A forma tradicional de receber uma visita é com uma xícara -de chocolate. Foi assim quando Montezuma recebeu os espanhóis que colonizaram seu império mesoamericano. Dessa relação se disseminaram novos hábitos sociais, comportamentais e de paladar hoje difundidos em todo o mundo, argumenta a historiadora norte-americana Marcy Norton, 39.
A própria palavra xícara, de origem náuatle, presta reverência indireta às diversas variedades de bebidas feitas com cacau. Decorado com pinturas, o recipiente fazia jus ao luxo representado pela fruição dos líquidos quentes ou frios, doces ou apimentados, sempre dissoluções de uma pasta que seria conhecida pelos colonizadores como "chocolate".
A imagem de ritual das elites -vinda de uma cultura em que grãos de cacau eram moeda corrente e a fruta era exigida como tributo-, marcaria assim o alimento muito antes de existirem os processos industriais que o transformariam em pó e barra no século 19.
O processo de assimilação ou "somatização" -nas palavras da professora de história da Universidade George Washington (EUA)- do chocolate é contrastado com o do tabaco em seu recém-lançado "Sacred Gifts, Profane Pleasures" [Dádivas Sagradas, Prazeres Profanos, Cornell University Press, 334 págs., US$ 35, R$ 77]. Em entrevista à Folha, a autora defende que os dois produtos inverteram a relação imperialista: por meio deles, os costumes dos colonizados foram expandidos mundialmente, em vez de desaparecerem.
"A visão comum de que o consumo de café levou ao consumo de chocolate está invertida. Na verdade, o chocolate parece ter ajudado a pavimentar o caminho para o café ao criar o anseio nos consumidores por bebidas escuras, amargas, adocicadas, quentes e estimulantes", afirma a pesquisadora.

 

FOLHA - Por que apresentar chocolate e tabaco juntos num livro?
MARCY NORTON
- Ambos são produtos nativos da América que se tornaram muito populares na sociedade europeia e nas sociedades europeizadas da América. Sua importância para a Europa surgiu na mesma época. Têm coisas relevantes em comum, geraram debates semelhantes, e foram muito diferentes na maneira de cruzar as culturas. Isso me atraiu.
FOLHA - Um se tornou um bem comum e outro viveu a glória social, a glamourização no cinema e a posterior demonização, o tabaco...
NORTON
- O que você está chamando de comum, o chocolate? No período que estudo, da chegada dos europeus [século 15] até o século 18, era o oposto. Há repetidos relatos afirmando que o tabaco permeava todas as classes e gêneros: homens e mulheres da cidade e do campo, pobres e ricos o consumiam, enquanto o chocolate era algo associado à elite. Somente a partir do final do século 17 começa a se espalhar para outros grupos.
FOLHA - A sra. abre seu livro com as impressões de um espanhol na corte de Montezuma, dando grande importância a ambos os produtos -aí aparece um aspecto da "nobreza" de seu consumo. Mas também conta que o chocolate não foi um sucesso imediato, que foram necessárias décadas de aculturação dos migrantes para chegar à Espanha. Que força simbólica prevaleceu: a do luxo pagão ou o da massificação?
NORTON
- Em certa medida, o sucesso do tabaco e do chocolate foi um "acidente de império". Os europeus chegaram à América com um conjunto de noções sobre como iriam se beneficiar. Mas, ao longo da experiência colonizatória, o encontro com o tabaco por toda a América -e o chocolate na Mesoamérica- foi inevitável, e sua assimilação aconteceu. No caso do chocolate, a ideia de "luxo supremo" veio desde o começo. Uma combinação de poder e prazer -é isso o que resume o chocolate. No caso do tabaco, houve sempre um atrito entre a consciência de que havia algo de religioso, de idolatria em seu uso e, ao mesmo tempo, um ato sublime de sociabilização. Um dos temas de meu livro é a tensão contínua entre essa imagem de idolatria diabólica do tabaco e seu uso social.
FOLHA - A palavra "xicálli" (que gerou "xícara") era usada especificamente para o chocolate?
NORTON
- Não. No contexto original, "xicálli" era para qualquer coisa. Mas, para os espanhóis, no início a palavra era associada prioritariamente ao chocolate.
FOLHA - Onde havia chocolate antes da chegada dos europeus?
NORTON
- Quando os espanhóis chegaram, o limite sul aonde chegava o chocolate -não o cacau- era a região onde fica a Costa Rica. Aparentemente outras culturas tinham o cacau, mas não faziam o chocolate. Em direção ao norte, o chocolate havia chegado pelo menos até a região do cânion Chaco, onde hoje é o Estado do Novo México. Mas não que o comércio do chocolate chegasse lá no século 15.
FOLHA - O tabaco era mais difundido do que o chocolate?
NORTON
- Sim, pois suas diferentes variedades podem crescer em qualquer lugar do Alasca à Argentina. E tinha muita importância social, com o uso medicinal ou espiritual, em grupos sociais que nada tinham a ver uns com os outros.
FOLHA - O rapé já era um hábito forte dos nativos americanos?
NORTON
- No período pré-colombiano, era uma hábito sul-americano -pelo que já se pesquisou até agora, era comum nos Andes e na costa onde hoje estão Venezuela e Colômbia. A palavra "rapé" é francesa, referindo-se à criação dos franceses no século 18, algo diferente, mais fino -e o que hoje se chama de rapé na América é provavelmente diferente de ambas as formas. Os espanhóis adotaram os hábitos das regiões por onde passaram -"humo", "polvo" e "hoja" [fumaça, pó e folha]. O pó [rapé] foi a forma que pegou com a elite no início, mas isso mudou rapidamente, quando os charutos se tornaram populares. Mas desde o início houve o desenvolvimento de um mercado complexo e segmentado -inclusive contrabando de tabaco brasileiro para a Espanha no século 18, apesar do bloqueio imposto pelo sistema colonial. O tabaco do Brasil, como era mais barato, era contrabandeado de Lisboa para a Península Ibérica.
FOLHA - Quanto ao chocolate, a variante mais comum era o "atole" (versão refrescante da bebida)?
NORTON
- Cárdenas [em texto de 1591] relatou isso, mas não é possível confirmar. Sabe-se que havia muitas bebidas com cacau, e essa mistura era uma das formas mais comuns.
FOLHA - O sabor da bebida era forte para os espanhóis? Seria forte para o gosto contemporâneo?
NORTON
- Existe um empresário em Santa Fe, no Novo México [www.kakawachocolates.com], que tenta reproduzir o chocolate feito pelas sociedades pré-colombianas e pelos primeiros europeus. O problema é que alguns dos ingredientes são muito restritos. Os pré-colombianos tinham uma constelação de plantas que não fazem parte da dieta ocidental -exceto, é claro, a baunilha.
FOLHA - Eles não tomavam simplesmente suco de cacau?
NORTON
- Sem dúvida, mas a polpa fresca só estava disponível onde o cacau era cultivado, e são áreas restritas, porque o cacau é uma planta frágil.
FOLHA - Mas a pasta de cacau não era comestível? Por que, afinal, demorou tanto para ser criado o chocolate em barra?
NORTON
- Não estudei muito esse capítulo da história, que se passa já no século 19. O que acontece é que as pessoas estavam satisfeitas com o que havia, não precisavam melhorar o chocolate. Foi a industrialização que possibilitou essa mudança. Em 1828, o holandês Van Houten percebeu a utilidade de reconstituir o cacau de modo mais barato, utilizando outras gorduras. Desse modo, o cacau passou a render mais dinheiro.
FOLHA - Então o coração da Europa -Bélgica e Suíça- assume o papel de autoridade em chocolate. Isso não é prova de que o alimento foi recriado pelos europeus, e não "somatizado"?
NORTON
- Isso só aconteceu no século 19. A distância entre o modo como o chocolate era consumido na Tenochtitlán nos Quinhentos e na Madri de 1685 é menor do que entre essa Madri e qualquer outro lugar do mundo nos anos 1950. Mas essa transformação só aconteceu no século 19. Para o chocolate atravessar o Atlântico, foi necessário haver essa somatização.
FOLHA - E o costume do chocolate quente espanhol guarda mais semelhanças com aquela origem?
NORTON
- Sim, e há relatos de tradição centenária na Sicília (Itália), no México etc.
FOLHA - Agora é moda consumir chocolate com percentual mais elevado de cacau. Essa onda de chocolateria é um movimento na direção da estética original do chocolate?
NORTON
- Por um lado, nos aproxima, porque há ênfase no gosto de cacau, muito mais próximo que um Hershey's Kiss, por exemplo, que quase não tem cacau. Por outro lado, nos leva mais longe das bebidas, restritas a grupos étnicos. Existe uma pessoa, Mark Christian, que vai colocar no ar um website [www.c-spot.com, com previsão de lançamento em maio] sobre o "chocolate de ponta". Nós discutimos recentemente o fato de o chocolate estar vivendo um apogeu -há um movimento por chocolates de alta qualidade, pelo alto percentual de cacau, que vê a procedência do cacau e incorpora o vocabulário dos enólogos. Diz que agora temos o melhor chocolate do mundo, mas rebato: não sabemos o que perdemos, mesmo que algumas tradições tenham sobrevivido.
FOLHA - A sra. escreveu em um estudo que "as políticas coloniais asseguraram a continuidade do cultivo, do comércio e do consumo do cacau, pois a possibilidade imediata de os governantes espanhóis lucrarem com a conquista dependia de sua usurpação e manutenção de um sistema organizado pelo governante asteca". O chocolate desapareceria se não fosse parte desse sistema?
NORTON
- Não. O tabaco não era parte do sistema de tributos, mas continuou. Meu palpite é o de que o chocolate seria assimilado do mesmo jeito. Se bem que, se por alguma razão os colonizadores quisessem utilizar o solo de outra maneira -por exemplo, se resolvessem criar ovelhas-, isso seria uma ameaça à sobrevivência do cacau, que é uma planta muito frágil. Aliás, uma das razões para as plantações migrarem para o sul foi a ganância dos espanhóis, que aumentaram os tributos, causando um desequilíbrio ecológico.
FOLHA - Em lugar de dizer que o chocolate abriu caminho para o café e o chá na cultura ocidental, não seria justo dizer que o mercado de cana-de-açúcar puxou a aceitação de bebidas amargas?
NORTON
- Esse é o argumento de Sidney Mintz, um dos primeiros a estudar a história de uma só commodity [em livros como "O Poder Amargo do Açúcar", ed. UFPE]. É daquelas coisas impossíveis de provar, mas eu gostaria de levar a sério a ideia de que tais bebidas serviram como veículos para o consumo de açúcar. Mintz usa esse argumento no caso do chá. Mas, para considerar o chá, é preciso considerar o chocolate, que chegou primeiro. Aliás, o açúcar já estava disponível desde a Idade Média -a cana era cultivada por portugueses-, e uma razão para o aumento da popularidade do açúcar deve ter sido o consumo dessas bebidas.
FOLHA - O chocolate era bebido por razões "funcionais" (tinha alta reputação como estimulante entre os nativos) ou por seu sabor?
NORTON
- Não era nem a questão do sabor nem de interesse pela "cozinha local" -assim como, hoje em dia, procuramos um restaurante "exótico"-, mas sim o fato de que os espanhóis se adaptaram ao costume. Ou seja, se estavam numa relação diplomática, era melhor que bebessem a bebida que lhes ofereciam. Os espanhóis começaram buscando ouro e prata na América. Levaram para lá uma visão que tinham do Oriente, portanto buscaram também especiarias e remédios. Acabaram levando para a Europa coisas como salsaparrilha e tinturas. O tabaco e o chocolate foram levados depois, no final do século 16, com espanhóis aculturados -o aspecto social desses produtos foi levado junto. O tabaco variou mais. Um tratado publicado em Córdoba nos anos 1690 o descrevia ao mesmo tempo como "uma coisa vil de escravos e marinheiros", dos elementos mais baixos da sociedade, e como objeto de rituais semelhantes aos de Tenochtitlán -com o mesmo prestígio envolvido. Já o chocolate era, de modo mais uniforme, uma coisa de elite. Como veio de uma região menor, mais unificada culturalmente, sua cultura foi mais fácil de ser preservada.
FOLHA - O uso do chocolate em ovos de Páscoa é uma continuação do imperialismo do século 16, em que agora as tradições ocidentais são deixadas para trás em favor de um festival pagão do chocolate?
NORTON - Nem uma coisa nem outra. Meu argumento é o de que o mundo que emergiu das viagens de Colombo ficou totalmente mudado. Não dá para entender a sociedade europeia sem levar a sério essas sociedades. Quem imaginaria que o tabaco seria a principal fonte de renda do Estado espanhol no final do século 17? Não dá para entender a história europeia isoladamente.
FOLHA - Qual sua opinião sobre o filme "Chocolate" (baseado no romance de Joanne Harris, com Juliette Binoche)? Ali parece haver uma certa oposição entre o "estranho" e a "tradição", como em seu livro.
NORTON - Não gosto dele. Como especialista, não consigo fazer aquela "suspensão do juízo" que esse tipo de filme requer. Devo soar como uma rabugenta, mas esse é meu lado de historiadora sensível.

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Compartilhado pelo Prof. Dr. Edson Hely Silva - Colégio de Aplicação da UFPE. Pesquisador.

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