"Acreditando na magia que existe na educação! Buscando ser a mudança que quero ver no mundo"!
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

CORAGEM BRAVOS GUERREIROS!

Professor, apresente aos seus alunos a imagem das diversas etnias indígenas presentes em nosso país, para que seu aluno tenha oportunidade de perceber as diferenças entre cada uma delas, bem como, da caracterização feita muitas vezes no Jardim da Infância de índios americanos!
Aproveite a data para refletir junto com seus alunos acerca de todos os problemas até hoje enfrentados pelo povo indígena, que é GENTE COMO A GENTE ( Ainda há os que pensam que os índios são seres mitológicos, de outro planeta...)






























quinta-feira, 16 de abril de 2009

AFINAL, O DIA DO ÍNDIO SERVE PARA ALGUMA COISA?


Infelizmente, as etnias brasileiras ainda não podem comemorar o dia 19 de abril de forma plena, uma vez que, em todo o país, a maioria dos índios enfrenta diversos problemas com as leis brasileiras que ainda não se libertaram da idéia de que o índio é "incapaz", sendo portanto, tutela do estado. Em todo território brasileiro há conflitos especialmente no que concerne a demarcação das terras indígenas, e quando o estado acena positivamente para os índios, o faz com diversas ressalvas, como é o caso da TI Raposa Serra do Sol, recentemente.

Aqui em Pernambuco, das 11 etnias existentes, as 11 tem sérios problemas com fazendeiros, políticos inescrupulosos, posseiros, grileiros e toda série de dificuldades.

Muitas vidas já foram ceifadas, covardemente, tal qual ocorria no início do século XVI. O sangue de muitos guerreiros foi derramado na luta pelo reconhecimento de sua cultura, de seus direitos, por parte da chamada sociedade "civilizada", que de forma estúpida e arrogante mantém discurso semelhante ao dos loucos nazistas. Já perdemos Xicão Xukuru, e tantos outros que "ousaram" desafiar os capitalistas.

Como educadora, acredito que esta data precisa ser recebida de forma mais consciente pelos profissionais da educação, aproveitando a data para tratar dos esteriótipos, do preconceito, da discriminação, das disputas por terras, da falta de políticas sérias para cuidar da saúde dos povos indígenas, da educação. Enfim, é imprescindível que nossos alunos conheçam a verdadeira história dos nossos índios, sob o ponto de vista dos índios e não dos colonizadores.

É assustador a falta de conhecimento da população quanto a assuntos indígenas. A ignorância chega a comentários extremos.

Durante nossas atividades para apresentar a diversidade cultural dos povos indígenas, os alunos repetiram frases que são ditas quase que diariamente por seus pais, que ouviram de seus avós e até hoje disseminam informações equivocadas, regadas de discriminação.

Ao comunicar na sala que iríamos visitar uma aldeia indígena, o aluno ao pedir autorização dos pais ouviu um não, com a justificativa de que era muito perigoso esse lugar cheio de índios(!!)

Com toda certeza, esses pais de alunos não são os únicos desinformados da sociedade gravataense acerca de nossos indígenas.

De uma coisa temos certeza: esta experiência impactará nossas vidas, e acreditamos que a partir deste trabalho multiplicaremos o respeito e o reconhecimento que temos pela contribuição ímpar dos nossos índios na formação deste imenso país.




A editora.

A FORÇA DOS GUERREIROS DO SERTÃO




Cacique Xicão (à esquerda - assassinado em 1998) pai do atual Cacique Marcos Xukuru
CARTA PARA MANDARU


De: Francisco de Assis Siqueira (1)


Há quanto tempo temos você como líder guerreiro, como símbolo de resistência cultura e exemplo de altivez. Mas, sempre Chicão – o Mandaru.
E a Serra de Ororubá, como está?
Imaginamos que estás sempre preocupado com o teu povo: o que estão comendo? Será que não tem nenhum parente passando fome? Onde vão botar as roças de feijão, milho e a mandioca, para fazerem farinha, a plantação da banana e a cenoura? Sem água? Só com o paliativo das cestas básicas não dá para sobreviver. Mas, ao mesmo tempo, como você é muito rápido no pensamento e pensa muito mais adiante e positivamente, deve estar sorrindo, olhando lá de cima, da Pedra do Rei: hoje, depois de doze anos na luta, já posso ver meus parentes um pouco mais aliviados. Quando chego em Pedra D’Água, antes não podia nem dançar o Toré, hoje tem a Pedra do Rei e um grande terreiro livre dos posseiros, onde juntamos todas as aldeias para dançar o Toré e as lideranças escutarem as preocupações das comunidades e passarem, também, seus recados.
A Pedra D’Água é a escola da organização dos Xukuru de Ororubá. Caípe de Baixo é uma história gorda. Antes só servia de pasto para engorda de gado que beneficiava apenas um fazendeiro. E, agora, é o pasto que engorda a história das retomadas. Na área moram mais de 28 famílias, e umas 80 botam a sua roça. Aí sim, estão engordando seus filhos. Fazenda Queimada. No início foi tristeza. Derramaram sangue do nosso parente Everaldo, filho do Pajé Zequinha. Mas, os parentes que trabalham hoje lá, não passam mais fome. E Pé de Serra. Mesmo sendo uma área pequena, pelo menos um grupo tem onde plantar cenoura, com água da barragem de Pão de Açúcar. Já Tianante, colado com Sítio do Meio, é outra história que está vigorando. Terra boa e pasto à vontade para as vacas da comunidade que já estavam passando fome. Porém, mais animado com a área tradicional em processo de demarcação (26.980 hectares), está quase tudo pronto, mas falta o principal: a homologação e o desentrozamento da área. Aí sim, só os parentes ocupando as nossas terras e trabalhando a vontade.
É, um bom trabalhador não pode pensar no peso da enxada, tem que batê-la e deixá-la bem afiada para cortar a terra.
Muito bem, Mandaru! E agora, que fizestes esta viagem?
Como os parentes vão se arrumar? Mas, é como você dizia, nas conversas à noite, após o café, à luz do candeeiro. A gente sentado, fumando um cigarrinho: "É, o Mandaru tá ficando velho e meio cansado. É por isso que eu não costumo fazer as coisas só. Porque aí os parentes vão aprendendo como eu aprendi um pouquinho. Por que, do jeito que vai, as ameaças, de uma hora para outra! E tem que ficar alguém na frente. Mas, eu quero ficar bem velhinho, os cabelos brancos, sentado naquela pedra e os parentes passando, aquele é o Mandaru, meu filho, que ajudou nós a demarcar a terra, e eu, só dando risada".
Claro, com teu exemplo tudo é possível. Vamos em frente, seguir o exemplo do herói Mandaru.
E, como diz Zenilda: "Se estão pensando que matando Chicão, vão calar a nossa voz, estão enganados! Por que a gente não vai arredar o pé da luta. Meus parentes não queremos vingança. Queremos justiça. E com fé em Tupã e Nossa Senhora das Montanhas, Nossa Mãe Tumaim, o sangue do nosso líder não vai ser em vão, a gente vamos conseguir" (Zenilda: 21/05/98, na Vila de Cimbres).



Francisco de Assis Siqueira é membro da Equipe UEPB / Xukuru

UMA GUERREIRA NO COMANDO

Dorinha Pankará - cacique pankará

Não estamos no Amazonas, mas bem que esta história poderá ser contada com a mesma magia e devoção que contamos a história das guerreiras amazônicas! Não sabemos se estas, de fato existiram, todavia, aqui em Pernambuco, entre os municípios de Carnaubeira da Penha e Floresta, há uma guerreira à frente do povo Pankará - é a Cacique Dorinha - única chefe indígena mulher do Estado.(grifo meu)
Após deflagrarem o movimento para o reconhecimento oficial, os Pankará, a partir de uma necessidade que surge do contato com a agência indigenista oficial – Funai e outros órgãos governamentais, como a Funasa, estão vivendo um processo de redefinição da sua organização política. Elegeram uma cacique: Maria das Dores Limeira, conhecida por Dorinha, um vice-cacique: Osmar da família Amanso e quatro pajés: Pedro Limeira, Manoel Cacheado, João Miguel e Pedro Leite – sendo estes lideranças antigas instituídas através do sagrado –, um corpo de representantes por aldeia, um Conselho de Saúde Local (exigência da Funasa); dois representante na Copipe (Comissão de Professores Indígenas em Pernambuco) e dois representantes na Articulação dos Povos Indígenas Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme).
Historicamente, ritual e autoridade estiveram estritamente ligados e constituem a dinâmica política entre os Pankará. Cada pajé possui um círculo de relacionamentos mais próximos, dentro da própria família, que consolida e legitima a autoridade de cada um. No caso de Sr.Pedro Limeira, sua autoridade político-religiosa é mais estável por ser também o patriarca. São muito recentes as mobilizações conjuntas para a resolução dos problemas comuns, embora sempre tenha existido uma articulação permanente que gira em torno do ritual, sendo este o espaço principal dos encontros e socialização das informações.
Se ao final do século XIX os povos indígenas em Pernambuco eram tidos como extintos ou incorporados à sociedade nacional, endossando o contingente de trabalhadores rurais, no século XX reaparecem no cenário político da região reivindicando direitos ao Serviço de Proteção ao Índio (SPI), entre eles, na década de 1940, um grupo que se auto denominava pelo etnônimo “Atikum” (Grünewald,1993), formado por “caboclos” das Serras Umã, Arapuá e adjacências. Assim começa a se delinear a (re)construção histórica dos Pankará, dando feições ao grupo como o percebemos hoje:
*A primeira fase compreende o período anterior a etnogênese do grupo Atikum, quando vários grupos indígenas se estabeleceram nas serras, interagindo com camponeses e negros quilombolas, dando visibilidade às unidades étnicas que vieram a emergir.
*A segunda fase da reconstrução histórica dos Pankará é expressa por um movimento que pode ser compreendido como políticas de aliança e ruptura, cuja base de cooperação resultou na constituição do povo indígena Atikum Umã, segundo a versão dos Pankará.
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BARREIRAS INTRANSPONÍVEIS?
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Escolas de comunidade indígena são fechadas em Pernambuco
11/11/2008
Fonte: Radioagência NP - http://www.radioagencianp.com.br/

A Relatoria Nacional para o Direito Humano à Educação chama a atenção para o quadro de negligência com a educação escolar indígena do povo Pankará, localizado no município de Carnaubeira da Penha, sertão do estado de Pernambuco. As escolas da comunidade foram fechadas em fevereiro deste ano e até agora não foram reabertas.A situação das escolas faz parte de uma realidade local marcada por conflitos de terra. O território tradicional Pankará está localizado em área valorizada no sertão pernambucano - em decorrência das fontes de água. O território ainda não foi homologado pela Fundação Nacional do Índio (Funai), o que acirra as disputas entre posseiros e indígenas na região.Se trata de uma rixa entre o prefeito da cidade, Manoel José da Silva (DEM), e os Pankará. Segundo a relatora responsável pela investigação, Denise Carreira, o fechamento das escolas é uma tática que visa a desestabilização da comunidade."Com certeza a escola é um fator decisivo para a manutenção, desenvolvimento e promoção da identidade de um povo. Ao limitar isso, com certeza você está limitando a força daquela identidade e a presença daquele povo naquela região."A relatora afirma que duas das 18 escolas foram fechadas. No entanto, essas duas unidades cumprem o papel de distribuição de material de reforma e alimentação para as outras unidades.As escolas foram fechadas cumprindo um abaixo assinado com o nome de 132 pessoas, em uma comunidade onde vivem mais de quatro mil. De acordo com os Pankará, os integrantes que assinaram o abaixo assinado - à pedido do prefeito - foram pessoas da comunidade que foram cooptadas.
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FONTE:
http://pib.socioambiental.org/pt/povo/pankara/1766
Por Caroline Mendonça - UFPE

OS XUKURU DE ALAGOAS


Em atenção ao questionamento que fiz para compreender melhor as diferenças entre os Xukuru do Ororubá e os Xukuru-Kariri, o Prof. Edson Silva enviou-me gentilmente esta resposta:



Date: Sun, 12 Apr 2009 07:10:46 -0300Subject: Re: Xukuru-CaririFrom: edson.edsilva@gmail.com



Sunamita,

Os Xukuru-Kariri são conhecidos habitantes em Palmeira dos Índios/AL., na Serra do Goiti e na Fazenda Canto. Em Palmeira dos Índios habitavam apenas índios Kariri, as secas e perseguições aos Xukuru (Pesqueira e Poção) durante os anos da colonização, fizeram esses últimos fugirem para Palmeira dos Índios, lá se esbalecendo e passando a compor o povo Xukuru-Kariri.Os povos indígenas são diferentes entre si e de nossa sociedade. Não pesquiso os Xukuru-Kariri, mas é do meu conhecimento que eles praticam rituais religiosos como o Ouricuri (espécie de reito religios nas matas) de forma diferente. Além de dançarem o Toré também diferente. Afora isso, eles tem acesso ao Ouricuri dos Kariri-Xokó (Porto Real do Colégio/AL), ao contrário dos Xukuru do Ororubá. Por fim, os Xukuru do Ororubá escolheram esse nome na Década de 1980 para exatamente se diferenciarem de seus parentes em P. do Índios, já que eram constatemente confundidos pela imprensa e pela sociedade em geral. Ou seja, anteriormente, até recentemente, os Xukuru em Pesqueira (e Poção) chamavam-se Xukuru.

Espero ter ajudado.

Abçs.,

Edson Silva

quarta-feira, 15 de abril de 2009

NA BAHIA TEM... ÍNDIO, MEU REI!

Índio da etnia Pataxó - BA


O estado da Bahia é famoso devido aos artistas que projeta, alguns já renomados mundialmente, como é o caso de Caetano, Gal, Gil, Bethânia, dentre outros grandes nomes da música popular brasileira, como também da literatura, como é o caso de Jorge Amado.

Com bem menos repercussão na imprensa, tanto escrita quanto televisiva, estão os aborigínes baianos, que ao que me consta, só foram mencionados pela mídia em virtude da comemoração dos 500 anos do "achamento" do Brasil, fato este que causou diversos protestos e, a manutenção da posição soberba da igreja católica em não pedir perdão aos nossos sobreviventes das catequeses.
Estima-se que haja uma população de aproximadamente 16. 715 indivíduos, distribuídos em pelo menos 10 etnias.

Mas, entre mortos e feridos ... eis alguns dos nossos verdadeiros "reis" que lutam para se salvar, descobertos de fato, por um pesquisador não -brasileiro (pra variar):





KIRIRI. Mirandela, BA.
Cerca de 1000 índios Kiriri, protegidos pelo SPI, vivem na área próxima ao Posto de
Mirandela. O Posto, criado há relativamente pouco tempo, mantém uma escola primáría para os índios. Mirandela fica a 40 quilômetros de Cícero Dantas e a 15 à direita da rodovia que leva à Ribeira do Pombal. Pode-se chegar até ela por meio de caminhão ou jipe, em boas estradas.
João Manoel Domingo, de 70 anos, pôde lembrar-se de 100 palavras da língua Kiriri.
Foi o único a recordar algo do idioma, não havendo qualquer evidência de retenção da cultura indígena.

KAIMBÉ. Massacará, BA.
Cerca de 500 descendentes da tribo Kaimbé vivem no subposto de Caimbé em Massacará, aproximadamente a 40 quilômetros de Mirandela. Saindo-se de Mirandela, o acesso a essa aldeia pode ser feito somente por jipe ou cavalo.
O Posto do SPI auxilia os índios em forma de medicamentos e outros serviços, mas não mantém escola. Tanto a língua como os costumes tribais parecem haver desaparecido. O velho Pajé foi capaz de relembrar apenas meia dúzia de palavras, que é possível que sejam Kaimbé. Umas outras que ele forneceu talvez sejam Kiriri. Parece que tanto a comunidade indígena como a brasileira de Massacará se desintegram, pois há muitas casas abandonadas.

PATAXÓ. Itaju, BA.
Os descendentes dos Pataxó (Hahaháe), que somam cerca de duas dúzias, vivem no Posto Caramuru do SPI, a 3 quilômetros de Itaju, Bahia. Itaju, também conhecido por Itagüira, fica a 25 milhas da rodovia pavimentada entre Itabuna e Santa Cruz da Vitória.
Por ocasião da nossa visita ao Posto Caramuru, o encarregado estava sendo substituído, estando temporariamente em seu lugar um dos empregados do Posto. Foi muito útil e gentil, fazendo todo o possível para facilitar o trabalho com os índios. Os Pataxó são inteiramente sustentados pelo Posto, que lhes concede uma pensão semanal. Não necessitam trabalhar. Um dos índios freqüentemente vai pescar no Rio Pardo, no outro lado da serra. Há apenas dois adultos genuinamente indígenas: Raco, com quase cem anos, e Tšitši'a, com cerca de 50 anos. Raco, embora fisicamente bem conservado, parece ter perdido um pouco a sua capacidade mental. Contando uma história, o português que empregou era ininteligível. Não foi capaz de dizer uma única palavra na sua própria língua. Tšitši'a, o mais ativo dos índios de seu grupo, lembrou muitas palavras isoladas, mas não foi capaz de combiná-las em frases.

BAENÃ. Itaju, BA.
Dos poucos índios Baenã, que, de acordo com Ribeiro (op. cit. p. 71), foram levados para os Postos de Caramuru e Paraguassu, apenas uma mulher foi encontrada. É casada com Tsitsi'a, o índio Pataxó aludido no item anterior. Não foi capaz de relembrar qualquer palavra Baenã.

KAMAKÃ.
Nada foi encontrado com respeito aos Kamakã que, de acordo com Ribeiro (op. cit.,
p. 77), foram levados para o Posto Caramuru. Várias investigações foram feitas também em Camacã, Bahia, cidade cuja denominação provém do nome da tribo.

GUERÉN. Olivença, BA.
Cinco mil descendentes da tribo Guerén (Botocudo) vivem ao longo das costas do mar nas proximidades de Olivença, Bahia, que fica mais ou menos 18 quilômetros ao sul de Ilhéus. O prof. Antônio Teixeira e o Padre Amaral muito auxiliaram nas informações sobre a tribo. Os índios estão completamente aculturados, tendo deixado de existir como tribo por algumas gerações. Adotaram a língua nacional e muitos deles se casaram com brasileiros.
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FONTE:
Robert E. Meader - Tradução do Inglês por Yonne Leite
Revista por Aryon D. Rodrigues
PUBLICAÇÃO DA SOCIEDADE INTERNACIONAL DE LINGÜÍSTICA - CUIABÁ, MT.
disponível em: http:// www.sil.org/americas/brasil/publicns/ling/IndNord.pdf

ONDE FORAM PARAR OS ÍNDIOS DO PIAUÍ E DO RIO GRANDE DO NORTE?


Em todos os livros de História do Brasil, mesmo nos mais equivocados, o registro histórico aponta para a presença de aborígenes em todo território brasileiro, ou seja, no território Pindorama, antes da chegada de Cabral e cia. Hoje, mesmo o mais desavisado dos seres, tem conhecimento que a estimativa dos estudiosos é de que havia aproximadamente 4 ou 5 milhões de nativos, e essa população habitava desde o litoral até o território mais inóspito, como a região amazônica. O que nos causou estranheza quando iniciamos nossa pesquisa, foi a ausência de índios nos estados do Piauí e do Rio Grande do Norte. Todas as informações só dão conta de que, não há índios nesses estados, reconhecidos pela FUNAI.

Das duas, uma: ou os índios foram banidos destes territórios, buscando abrigo em outros estados ou, tal qual tentam fazer até hoje, matam, escondem vestígios, na intenção de negar a presença destes povos!



O que é elementar nesse caso, meu/a caro/a Wadson??

UM PEDACINHO DA AMAZÔNIA EM GRAVATÁ







OS SABORES DA REGIÃO NORTE






Ao concluir os estudos acerca dos "Saberes da Região Norte", os alunos da 4ª série "C" da Escola John Kennedy, visitaram a Sorveteria Gullas e experimentaram alguns dos exóticos sabores de origem amazônica, a maioria, derivada do guaraná, planta domesticada pelos índios. Dentre os sabores degustados, destacam-se: sorvete de cupuaçu, suco de guaraná com macapurama e açaí na tigela.
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Fotos: Thiago Foto Studio

terça-feira, 14 de abril de 2009

ORIGEM DO DIA DO ÍNDIO


Por Edson Silva*


O 19 de abril foi escolhido como Dia do Índio em assembléia realizada na cidade de Patzcuaro (México), em 1940. Não é data de batalha, nem data que celebre a resistência indígena propriamente dita, mas sim a data em que pela primeira vez delegados indígenas se reuniram em assembléia no 1º Congresso Indigenista Interamericano que se realizava naquela cidade. Todos os países da América foram convidados a participar dessa celebração. Esse dia seria dedicado ao estudo dos problemas dos índios pelas diversas instituições de ensino, no sentido de facilitar aos governos a adoção de normas necessárias à orientação de suas políticas indigenistas. Pelo Decreto-lei nº 5.540, de 02 de junho de 1943, o Brasil adotou a recomendação do Congresso, sendo o Dia do Índio celebrado pela primeira vez no país em 1944.

*Doutor em História Social pela UNICAMP. Mestre em História pela UFPE. Pesquisador do Laboratório de Estudos em Movimentos Étnicos-LEME/UFCG; do Núcleo de Estudos e Debates sobre a América Latina-NEDAL/UFPE; e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade-NEPE/UFPE. Leciona História no Col. de Aplicação/CENTRO DE EDUCAÇÃO-UFPE.
E-mail: edson.edsilva@gmail.com

A FÊNIX DO NORDESTE BRASILEIRO

(publicado in: BRANDÃO, Sylvana. (Org.). História das religiões no Brasil.
Recife: Editora Universitária UFPE, 2002, vol. 2, pp. 347-362)
“Nossa mãe Tamain”. Religião, reelaboração cultural e
resistência indígena: o caso dos Xukuru do Ororubá (PE)






Edson Silva*


Em memória do Cacique Xicão e do reconhecido líder Chico Quelé, brutalmente assassinados em 20/05/98 e em 23/08/01, a mando de fazendeiros, invasores das terras do seu povo. Crimes até o momento impunes.



Índios: da tragédia final anunciada a uma história reescrita



O escritor Eduardo Galeano em seu conhecido livro As veias abertas da América Latina publicado em fins de 1970, no Uruguai, e que traduzido no Brasil já ultrapassou mais de 40 edições, escreveu sobre os povos indígenas e a colonização: “Os índios padeceram e padecem – síntese do drama de toda a América Latina – a maldição de sua própria riqueza (...) As matanças dos indígenas começaram com Colombo e nunca cessaram” (1987: 58-59). E ao tratar do Brasil, na mesma obra, afirmou o conceituado autor: “Não se salvam, atualmente, nem mesmo os índios que vivem isolados no fundo das selvas. No começo deste século, sobreviviam ainda 230 tribos no Brasil; desde então desepareceram 90, aniquiladas por obra e graça das armas de fogo e micróbios. Violência e doenças, pontas de lança da civilização: o contato com o homem branco continua sendo, para os indígenas, o contato com a morte”. (pág. 60). A visão da história da colonização da América, apenas enquanto uma tragédia, por diversos autores que se dedicaram ao assunto e, durante muito tempo, pelas reflexões das Ciências Humanas e Sociais, fundamentaram-se nos relatos dos primeiros cronistas coloniais a exemplo de Bartolomé de Las Casas, que é o autor da célebre e conhecidíssima Brevíssima Relación de la Destruición de las Indias Ocidentales (1552), nos relatos de Gonzalo Oviedo, Juan Sepulveda, Bernadino de Sahagun, dentre outros, que descrevem as violências e atrocidades da colonização espanhola.
Essa visão apenas trágica aliada a uma concepção evolucionista, norteou também por muito tempo, os estudos sobre os povos indígenas no Brasil. Estão presentes em As Américas e a civilização (citada por Eduardo Galeano) e em Os índios e a civilização, obras muito conhecidas do antropólogo Darcy Ribeiro, sendo que, nesta última, que tem como subtítulo “ A integração das populações indígenas no Brasil moderno”, na parte que tratou das “fronteiras da civilização”, ao analisar a expansão pastoril no Nordeste, o autor concluiu: “Por todos os sertões do Nordeste, ao longo dos caminhos das boiadas, toda a terra já é pacificamente possuída pela sociedade nacional; e os remanescentes tribais que ainda resistem ao avassalamento só têm significado como acontecimentos locais, imponderáveis.” (Ribeiro, 1982:57). (grifamos).
Contrariando as previsões funestas, os povos indígenas ao longo dos 500 anos de colonização, não somente elaboraram diferentes estratégias de resistência/sobrevivência, como também alcançaram nas últimas décadas, um considerável crescimento populacional. Crescimento este recentemente noticiado pela imprensa de 3,5% ao ano, maior que a média da população brasileira em 1,6%, segundo estimativa do IBGE.(Jornal Folha de São Paulo, 24/03/01,p.A9). Questionando assim as tradicionais imagens e visões eurocêntricas, colonialistas e evolucionistas, o que exigiu reformulações das teorias explicativas sobre esses povos.
Classificados no Nordeste, oficialmente, como remanescentes de índios e, nos lugares onde existiram antigos aldeamentos, conhecidos no senso comum, por caboclos, condição muitas vezes assumida para esconder a identidade étnica diante das inúmeras perseguições nos conflitos das invasões de suas terras, a eles foram dedicados estudos de seus hábitos e costumes considerados exóticos, com seus rituais, danças e manifestações folclóricas em vias de extinção, como aparecem em publicações que exaltaram de forma idílica a contribuição indígena nas origens e formação social de municípios do interior.
Porém, o caboclo permaneceu índio, questionando as teorias do desaparecimento indígena e assim, vários povos indígenas “invisíveis” no Nordeste, teceram uma história de resistência étnica afirmada nas primeiras décadas do século XX, no momento conjuntural por eles considerado propício para exigirem o reconhecimento oficial, para mobilizarem-se na reconquista de suas terras e de seus direitos históricos negados. (Silva, 2000: 110-111).
Nos últimos 30 anos diversos povos indígenas ressurgiram na Região em um processo de emergência étnica. Esses povos vivenciaram um processo dinâmico de reelaborações culturais e de identidades negociadas, em um contexto político de luta pela terra e direitos sociais, processo esse explicado pela reflexão antropológica como etnogênese (Oliveira, 1999). Recentemente, a imprensa noticiou os casos de ressurgimento dos Pitaguary, no Ceará, dos Karuazu, os Kalancó, os Katoquin e os Koiupanká em Alagoas, dos Tumbalalá, e os Pipipã, em Pernambuco e dos Tupinambá, na Bahia.


(continua)


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* Doutor em História Social da Cultura pela UNICAMP. Mestre em História pela UFPE. Pesquisador da história dos Xukuru do Ororubá. É membro efetivo da CEHILA-Brasil/Núcleo Nordeste. Leciona História no Col. de Aplicação/CENTRO DE EDUCAÇÃO -UFPE. E-mail: edson@cap.ufpe.br

OS PRIMEIROS HABITANTES DE GRAVATÁ

Os Fulni-ô




Os Fulni-ô (palavra que significa “ povo que vive ao lado do rio”, em português) têm seu local de moradia no município de Águas Belas, junto à cidade de mesmo nome, a uma distância de 237 km, do Recife, capital do Estado de Pernambuco.
A reserva indígena dos fulni-ô possui uma área de, aproximadamente 11.000 hectares e tem particularidades que a distinguem das outras existentes no Estado: enquanto as demais comunidades vivem no meio rural, a reserva Fulni-ô tem no seu centro geográfico a cidade de Águas Belas, sede municipal, com uma população de aproximadamente 8 000 habitantes. A reserva é ainda cortada por uma rodovia federal, a BR 423.Somente a partir do século passado pode-se falar com segurança da história dos Fulni-ô e em particular ao que se refere às terras que ocupam. De como viviam em épocas anteriores, sabe-se, ou apenas pode se presumir. Segundo alguns estudiosos, os índios Fulni-ô, também conhecidos por Carnijó ou Carijó, seriam possivelmente remanescentes de uma tribo cuja denominação mais antiga era a de Carapató. Não teria sido este o único grupo indígena a ter seu nome mudado, e com esta primeira identificação ocupavam terras na Serra do Comunati, no município de Águas Belas, onde foram catequizados de 1681 a 1685. Também se estabeleceram por longos períodos nos locais onde posteriamente se desenvolveram as cidades de Caruaru, Gravatá, Taquaritinga e Brejo da Madre de Deus. Referencias mais detalhadas sobre estes índios, já denominados Carnijó, surgirem a partir de seu aldeamento num único local, em Águas Belas. Com direito a duas léguas em quadro, concedidos por Carta Régia de 5 de junho de 1706, a aldeia de Águas Belas ou de Ipanema reunia, em 1749, 322 índios, havendo entre eles um missionário do hábito de São Pedro. Pouco mais que um século depois, em 1855, a população da aldeia era de 738 indivíduos em cujas terras viviam também arrendatários brancos ocupando as melhores áreas das férteis terras indígenas. Já anteriormente os mesmos índios haviam cedido ilegalmente parte de sua propriedade ao patrimônio da igreja, sendo os terrenos arrendados pelo pároco a uma população branca que construiu suas casas no entorno da igreja e a partir de onde se desenvolveu a cidade de Águas Belas. Foi também na mesma época que surgiram os primeiros incidentes entre índios e invasores de suas terras. Com o crescimento do povoado dentro de terras indígenas e as crescentes investidas dos brancos culminaram, no ano de 1860, em conflitos tão graves que o governo imperial, por aviso de 4 de novembro de 1861, determinou a extinção da aldeia. Esta medida, entretanto, não teve execução, e no ano seguinte, novas orientações foram dadas ao governo provincial para a distribuição de lotes de terras aos indígenas.Somente a partir de 1877 foi efetivada a demarcação das terras. Dados existentes no Arquivo Público de Pernambuco confirmam, com aproximadamente, os 11 000 ha. De superfície da atual reserva, que foram, naquela época, divididos em 427 lotes sendo 320 de aproximadamente 30ha e 107 de tamanhos diversos. Dos primeiros, uns números de 140 foram distribuídos às famílias indígenas e demarcou-se também a área de aproximadamente 80ha pertencentes à igreja e localizada quase no meio da reserva.
Não cessaram, entretanto, os conflitos e por volta de 1916, era tão grande a hostilidade entre os Fulni-ô e a população de Águas Belas que cresceu em redor da igreja, que os índios foram compelidos a se afastarem para um quilometro adiante do antigo aldeamento onde estão instalados até hoje.Não existe escritura das terras, mas a forma como foi dividida permanece inalterada segundo planta existente no Posto Indígena localizado na aldeia. Do mesmo modo, os índios mantiveram o costume de arrendar suas terras, o que permitiu a permanência das mesmas famílias, durante anos, na área de domínio indígena. Afora o relacionamento pouco amistoso entre os índios e a população de Águas Belas, a presença dos arrentadários parece começar a se constituir em fonte de atritos. Entre muitos das famílias indígenas entrevistadas, sente-se o desejo de tornar a ocupar os lotes arrendados, o que tudo indica, não é do interesse dos civilizados.
A aldeia, que abriga uma população de aproximadamente 4 000 índios, tem caráter essencialmente urbano e é praticamente ligada à cidade, servindo-se inclusive dos seus sistemas de abastecimento de água e eletricidade. Não existem cercas ou qualquer outra forma de delimitação da aldeia, e apenas um riacho a separa da malha urbana de Águas Belas. Até a década dos trinta, os Fulni-ô faziam uso exclusivo da palha de ouricuri na feitura de suas casas. A partir da intervenção do Serviço de Proteção ao Índio – SPI, com a fundação do Posto Indígena Dantas Barreto, a aldeia ganhou o traçado urbanístico atual, e certamente perdeu qualquer traço cultural por ventura naquela época ainda existente quanto ao modo de habitar. Além do material empregado, os entrevistados nada sabiam a respeito da forma das antigas moradias. Atualmente, nenhum traço resta nas edificações que se possa identificar como fruto de uma civilização indígena. A aldeia é composta de habitações individuais de taipa ou alvenaria semelhantes as das populações pobres do Nordeste, tanto no tamanho quanto no programa, nos materiais empregados e na aparência.
A disposição das casas e o traçado das ruas fazem da aldeia uma vila popular anexa à cidade de Águas Belas. O seu centro, um grande espaço retangular desprovido de qualquer tratamento urbanístico – não há meio-fio, pavimentação ou arborização – é definido longitudinalmente por dois alinhamentos de casas e limitado nos extremos, por três edificações de porte: ao sul, uma igreja católica, e ao norte, o Posto Indígena e a escola local. Nestas ruas principais, nota-se que a maior parte das casas foram ampliadas, e novas materiais, em substituição à taipa e à palha, foram empregados conforme as posses do morador. A maioria é de alvenaria com piso de cimento, mas à medida que se afasta do centro aparece com mais freqüência pequenas casas de taipa de chão batido e quase sempre em péssimo estado de conservação.
Na maior parte das casas, segue-se o modelo tradicional popular de planta retangular com os quartos alinhados de um lado e, no lado oposto, dispondo-se a sala e cozinha através dos quais é feita a circulação desde o terreiro até o quintal. A descrição é de uma edificação estritamente residencial, mas é neste mesmo espaço que se desenvolve o trabalho artesanal que ocupa a maior parte dos membros das famílias. Apenas duas casas visitadas tinham sido reformadas para a criação de local de trabalho de trabalho e venda dos produtos. Nas demais, o trabalho é desempenhado na sala ou na cozinha. Não há local específico para o armazenamento do material de trabalho, e a secagem da palha usada é feita no terreiro de chão varrido. Não existem estabelecimentos comerciais na aldeia com a exceção de uma pequena mercearia e das lojas de artesanato. O comércio e a feira semanal de Águas Belas atendem aos moradores da aldeia. Além da aldeia, a comunidade tem ainda na reserva um segundo local de moradia, no qual permanece durante os três meses dedicados aos rituais do Ouricuri. Esta povoação, de uso temporária e também chamada Ouricuri, dista cerca de 6 km da aldeia, sendo ligada a esta por precária estrada de terra. Dado o seu caráter de moradia temporária, até alguns anos atrás toda a comunidade se abrigava em pequenas casas de palha de ouricuri refeitas a cada ano. Segundo observações do cacique, o consumo da palha – no artesanato e na feitura das casas tanto na aldeia quanto o Ouricuri – fez com que o material se tornasse raro nas imediações, obrigando os indígenas a caminhadas cada vez mais longas em busca das palmeiras hoje praticamente inexistentes na reserva.
Por conta da escassez e da pequena durabilidade da palha, as casas passaram a ser construídas em taipa. Esta é a técnica construtiva predominantemente usada até oito anos atrás, sendo agora feitas por alvenaria. Aparentemente nenhum plano ou hierarquia determinou a disposição das moradias no local; não há uma rua principal, e o local de reunião da comunidade está situado na periferia do povoado. Extremamente zelosos quanto aos segredos que envolvem o Ouricuri, os indígenas não deram esclarecimentos sobre a forma inusitada, semelhante a um labirinto, do povoado. Sabe-se, entretanto, por informações vagas, que o traçado urbano do Ouricuri e a localização das moradias é rigidamente determinado pelos clãs a que pertencem as famílias. O ajuntamento de casas e o traçado das ruas pareçam funcionar como uma barreira à penetração de estranhos no local dos rituais, este a própria razão da existência do povoado. Trate-se de um espaço aberto relativamente pequeno, onde existem dois galpões toscos com cobertura de telhas montada em paus fincados no chão. Entre os dois abrigos está o juazeiro sagrado do ritual do Ouricuri. As habitações são extremamente precárias e de dimensões reduzidas. Supõe-se que divisões internas são poucas ou inexistentes, como o são também as aberturas para ventilação e iluminação. Não dispõem de quintal e têm apenas um acesso e uma ou duas janelas na fachada principal; as paredes são quase sempre desprovidas de reboco e os pisos são de terra. Considerando-se o número de pessoas a serem abrigadas, o espaço disponível, além de inadequado, e insuficiente. Entretanto, durante o tempo de permanência no povoado, pelo menos uma parte da população masculina dorme em torno do juazeiro sagrado, nos dois galpões existentes ou ao relento. Supõe-se, então, que as casas são ocupadas apenas pelas mulheres e crianças.A economia da comunidade Fulni-ô baseia-se quase que exclusivamente na agricultura embora a área da reserva indígena não seja extensivamente explorada. A terra e o seu uso pelo Fulni-ô têm significados bastantes distintos das outras comunidades indígenas de Pernambuco. Em primeiro lugar, esta é a única reserva demarcada pelo S.P.I. cujas terras foram divididos e doados à famílias indígenas sob a forma de lotes individuais, com cerca de 30 hectares cada. Entretanto, como não foi adotado nenhum sistema de redistribuição que acompanhasse a dinâmica do crescimento familiar, a simples passagem da posse do lote, de pai para filho, gerou a existência, hoje, de índios sem terra, em detrimento de outros com posse de vários lotes. A maior parte dos proprietários de lotes não cultiva a área de que dispõe, preferindo arrenda-la a terceiros inclusive a outros índios da mesma comunidade. O sistema de arrendamento foi instituído pelo antigo S.P.I sendo ainda hoje feito legalmente e por tempo determinado com o controle da Chefia do Posto Indígena.
Os lotes arrendados se prestam tanto para o plantio de roçados como para pastagem do gado. A maior parte dos posseiros está instalada no local há muitos anos pela renovação sistemática do contrato de arrendamento. Desta forma, uma população de aproximadamente 6 000 civilizados vive em terras indígenas implantando infra-estrutura e benfeitorias que sugerem um nítido caráter de permanência por tempo indeterminado. Este fato permite antever um grave problema entre os índios e estes brancos, desde que já se faz sentir faz na comunidade indígena, o desejo de retomar a posse das suas terras. Os lotes arrendados aos civilizados são aqueles localizados na região mais fértil da reserva, especialmente onde a água é perene. As culturas principais são feijão, milho, macaxeira e uma variedade considerável de frutas, podendo ser observada ainda alguma atividade pecuária. Pelo arrendamento desses lotes, o proprietário da terra recebe anualmente a quantia de R$ 150,00 por ha. Enquanto os lotes usados para pastagem são arrendados a R$ 100,00. Pelo exposto, deduz-se que uma família indígena percebe cerca de R$ 312,50 mensais por lote agricultável de 30 ha. (preços de janeiro de 2002). Como a distribuição da terra é atualmente bastante irregular tanto em relação ao número de lotes por família como na qualidade do solo e ainda considerando que nem todos os índios têm lotes arrendados, conclui-se que a renda familiar é também desigual. Isto se torna mais evidente quando se observa a qualidade das habitações, móveis e utensílios domésticos e outros parâmetros relacionados com a renda familiar.
As terras férteis sendo usadas preferencialmente para arrendamento, restam aos indígenas as áreas mais áridas que só possibilitam uma agricultura de subsistência. Vale ressaltar que a expressão “terra fértil” é usada aqui para nomear as porções de terra mais próximas aos mananciais d’água e em particular à faixa de terra na periferia norte da cidade de Águas Belas, no “pé de serra”. Fatores como condições climáticas desfavoráveis, técnicas rudimentares e uma aparente inaptidão para o trabalho agrícola, além da falta de assistência sistemática para o desenvolvimento da agricultura, estão entre as causas mais evidentes para a ociosidade de grande parte das terras indígenas.
Informações obtidas através contatos na aldeia e na chefia do Posto não foram suficientes para se ter uma idéia da importância da produção agrícola, embora se saiba que há uma comercialização incipiente dos produtos pelos indígenas. Pequenos projetos agrícolas são tentados pela FUNAI quando há perspectivas de chuvas na região e, segundo informações dos índios, a substituição de vários arados de tração animal por um único trator, numa tentativa da FUNAI de dinamizar a agricultura, nenhum melhoria proporcionou à atividade agrícola.Uma série de atividades de baixa remuneração são também desempenhadas pelos índios para complementar, a declarada baixa renda familiar. Entre estas atividades o artesanato tem grande destaque. Embora não tenha sido possível uma avaliação incipiente dos produtos, a importância da atividade é evidente pelo número considerável da população que a ela se dedica. O artesanato desenvolvido pelos Fulni-ô se restringe basicamente ao uso da palha de ouricuri, como já foi referido, é atualmente escassa, sendo sua aquisição, cada dia mais difícil e onerosa, freqüentemente através de fornecedores do Estado de Alagoas.
A participação masculina no trabalho é mais restrita à coleta da matéria prima, enquanto as mulheres se ocupam do tratamento do material a da elaboração dos objetos. Não existe local específico para o desempenho do trabalho; tanto a cozinha como a sala ou a calçada é usada como oficina, notadamente por adultos sentados no chão. Entre outros comentários, alguns artesões citaram a falta de interesse atual dos jovens pela atividade artesanal, como também a necessidade de um esquema que possibilite um melhor escoamento da produção. A comercialização é feita na feira de Águas Belas, nos sábados, ou na própria aldeia na residência dos artesões, dos quais pelo menos quatro tiveram as salas transformadas em pequenas lojas. Atende-se também a encomendas volumosos as mas esporádicas de compradores do sul do País, ou tenta-se a venda quando alguns caboclos vão ao Recife. Quanto à qualidade dessa produção artesanal, pouco diversificada e pouca criativa, destaca-se apenas o trançado de palha ou de fibra em alguns tipos mais elaborados de esteiras e tapetes. Entretanto, das comunidades indígenas visitadas, é sem dúvida entre os Fulni-ô que o artesanato tem maior expressão. Embora não tenha sido possível uma avaliação do valor de produção, a importância da atividade é evidente pelo número considerável de pessoas que a ela se dedica. O artesanato é a principal fonte de complementação da renda familiar que, apoiando-se nas declarações obtidas, é fundamentada no arrendamento das terras. Mesmo sem um conhecimento preciso da capacidade aquisitiva atual dos Fulni-ô, pode-se afirmar com certa segurança que nas duas últimas décadas houve uma melhoria sensível na qualidade de vida da comunidade. Esta afirmativa é apoiada na análise de pelo menos um levantamento realizado entre os indígenas na década dos sessenta. Segunda esta fonte, em 90% das habitações, o mobiliário era o que havia mais rudimentar, constando apenas de um banco, de uma ou duas camas de vara, esteiras de palha e um pilão. Para várias moradias, hoje, esta descrição de extrema pobreza ainda é válida; no entanto, para a maioria, pode-se observar uma melhoria considerável, destacando-se um pequeno grupo com um padrão de vida acima da média da aldeia. Nas casas desta minoria são encontradas com freqüência móveis de fórmica e estofadas de plástico nas salas, camas do tipo patente nos dormitórios e raras geladeiras. Nas cozinhas, o fogão rudimentar de trempe perde para o de alvenaria, usando-se lenha ou carvão como combustível.
A aldeia possui até mesmo alguns aparelhos de televisão como sinais de ascensão econômica de algumas famílias. Entretanto, observa-se um nivelamento quanto aos aspectos de higiene e saúde, determinando principalmente pela precariedade do abastecimento de água à população tanto na aldeia quanto no Ouricuri. A aldeia é ligada ao sistema público de captação e distribuição de água que serve à cidade de Águas Belas. Este sistema, entretanto, não atende satisfatoriamente sequer a cidade, e a aldeia, aparentemente pro conta da topografia local, é um das partes mais afetadas. Apesar desta infra-estrutura, de fato, não existe atualmente água na aldeia, estando o único chafariz público desativado há muito tempo. Aliando-se a falta de água ao baixo poder aquisitivo da população e, possivelmente, a um fator puramente cultural, raras são as casas que dispõem de instalações hidráulicas e sanitárias.
Existem alguns sanitários instalados pela FUSAM, precários e pouco utilizados pela população, e a água potável consumida é coletada em qualquer torneira disponível na cidade e transportada em latas na cabeça até a aldeia. Para higiene corporal e lavagem de roupa, a comunidade utiliza-se do riacho que separa a aldeia da cidade. A água, entretanto, é altamente poluída, pois ao atravessar a cidade, o riacho recebe detritos urbanos de toda ordem. No Ouricuri, mesmo desconhecendo-se o comportamento da população durante sua permanência no povoado, é evidente a precariedade das condições sanitárias. Este período anual compromete seriamente a saúde da comunidade que, segundo um declarante, “volta tudo doente para a aldeia”. O maior foco de doenças parece estar situado na única fonte de abastecimento de água local – um barreiro poluído de pequena capacidade de armazenamento – que obriga a população a levar água em latas desde a cidade, utilizando-se qualquer meio de transporte disponível. Embora apontado pela população como sendo o seu problema mais grave, à qualidade da água pode-se acrescentar as condições precárias das moradias como motivo para as doenças que acometem quase todos – gripe, doenças da pele e dos olhos e verminoses. Apesar de classificada como uma “comunidade urbana” e, portanto mais vulnerável à perda dos traços da sua cultura, os Fulni-ô surpreendem o visitante exatamente pela manutenção de elementos importantes do seu patrimônio cultural, ao contrário do que ocorre em outras comunidades visitadas
Além da convicção de serem índios, fato comum a todos os remanescentes indígenas de Pernambuco, os Fulni-ô mantêm o Yaathé como dialeto falado. Sendo bilíngües, reservam o idioma português mais para a comunicação com estranhos, e quando entrevistados em grupo, freqüentemente pareciam esquecer a presença dos pesquisadores e conversavam entre si na língua tribal, emitindo opinião somente após a tradução ou comentário feito por outro indígena presente. Algumas crianças, entretanto, para desagrado dos pais, atualmente reagem ao uso da língua tribal. Por este motivo, os adultos demonstravam entusiasmo com a adoção da língua Yaathé no currículo escolar.Os Fulni-ô mantêm-se fies ao culto do Juazeiro Sagrado, e toda a comunidade se desloca para o povoado chamada Ouricuri onde permanece durante os meses de setembro, outubro e novembro, cercados inclusive de certo aparato de segurança para evitar a presença de brancos curiosos, responsáveis por relatos fantasiosos na região a respeito dos rituais. Ao contrário dos desprendimentos com que demonstram o uso da língua nativa, os indígenas são extremamente reservados quanto ao cerimonial. Informaram apenas sobre a participação exclusiva da população masculina, não sendo permitida a presença das mulheres, em qualquer época do ano, no local dos rituais, isto é, o terreiro em torno do Juazeiro Sagrado. O culto tem tal importância para os Fulni-ô que, segundo declarações do Cacique, até mesmo alguns indígenas não mais residentes na aldeia deslocam-se desde o Recife ou São Paulo por ocasião do cerimonial.
Outros elementos culturais podem ser observados ou meramente citados à falta de conhecimento mais aprofundado dos usos e costumes dos Fulni-ô. O sincretismo religioso originado do trabalho de catequese por missionários e da adoção de crenças comuns na cultura brasileira fazem parte dos Fulni-ô, católicos praticantes, que não raro adornam suas casas com estampas e imagens de lemanjá e São Jorge, enquanto cultuam o Juazeiro Sagrado.
Sabe-se, por referências bibliográficas, que a população é dividida em clãs hierarquizados, mas de sua organização político-social sobressaem apenas as figuras do cacique e do pajé cuja atuação, supõe-se, é mais forte nos cerimoniais. Ao nível da comunidade e de suas relações com a sociedade envolvente, aquelas autoridades tradicionais assumem hoje a função de meros intermediários entre a comunidade e o chefe do posto da FUNAI.

Fonte: http://www.geocities.com/pipermusic/fulnibr.html

segunda-feira, 13 de abril de 2009

OS SABERES ABORÍGENES PERNAMBUCANOS

ÍNDIOS XUKURU DO ORORUBÁ

Os Xucuru (ou Xukuru), com uma população atual de cerca de 3.500 índios, vivem na serra do Ororubá, numa área de 26.980 hectares, no município de Pesqueira.

De acordo com vários pesquisadores, o nome da serra Ororubá possui diversas origens e significados: seria uma corruptela de uru-ybá – fruta dos urus, onomatopaico de várias pequenas perdizes; viria de "orouba", uma palavra oriunda do cariri; seria de origem tupi, vindo de uru-ubá – fruta do pássaro ou ser corruptela de arara-ubá ou, ainda, poderia dizer respeito à expressão designativa da primeira tribo tapuia-cariri localizada na serra.

Sua presença na serra do Ororubá, vem desde a época da colonização portuguesa, como o comprovam alguns documentos. Provavelmente nunca tenham se afastado do local.

Em 1879, como aconteceu com outras aldeias que ainda sobreviviam à invasão do seu território, houve a extinção da aldeia Xukuru pelo Governo. O grupo passou então a sobreviver vagando pela serra.

Foram alvo de perseguições, como a proibição de seus ritos religiosos e da prática do uso de ervas medicinais para curar suas doenças. Porém, a indefinição de seus limites territoriais foi, no entanto, o que mais afetou a existência do grupo. Seu território foi demarcado em 1995, mas o processo de regularização fundiária ainda não foi concluído, ocasionando muitos conflitos pela posse da terra.

Os remanescentes Xukuru que sobreviveram ao processo de perseguições sistemáticas e expropriação de suas terras conservaram poucos traços étnicos e culturais. O toré é dançado em poucas ocasiões, não falam mais sua língua nativa, salvo algumas palavras ainda conhecidas pelos mais velhos como, lombri= água; lomba=terra; clariu= estrela; amum= farinha; echalá= fava; maiu= panela; xigó = milho; chrichaú= feijão; memengo= bode, entre outras.

O grupo está distribuído em 18 aldeias: São José, Afeto, Gitó, Brejinho, Canabrava, Courodanta, Bentevi, Lagoa, Santana, Caípe, Caetano, Caldeirão, Pé de Serra, Oiti, Pendurado, Boa Vista, Cimbres e Guarda.

Cada aldeia é constituída por um grupo de famílias, habitando cada uma na sua casa. Toda a aldeia possui um representante, que leva os problemas da sua comunidade para o cacique, que é o representante dos Xucuru como um todo.

Vivem, essencialmente, da agricultura de subsistência, horticultura, fruticultura e do artesanato de bordados de renascença feitos pelas mulheres da tribo.

As principais culturas são milho, feijão, fava e mandioca, porém o que garante a sobrevivência dos índios é a fava, por ser de custo mais baixo que o feijão, sendo colhida durante todo o verão.

Os Xukuru revivem, anualmente, suas tradições mítico-religiosas por ocasião das festas de Nossa Senhora das Montanhas e de São José. Apesar de não serem festas indígenas, servem de motivo para que os índios revivam costumes próprios da sua cultura, através das danças, cantigas em dialeto misturado com português e o cultivo das lendas sobre a tribo, como a que diz: "Nos tempos dos índios inocentes, encontraram a imagem de Nossa Senhora num tronco de jucá, os padres levaram, então, a Santa para a igreja, mas a santa voltou para o tronco de Jucá".

Segundo dizem, é neste local que se realiza o ritual dos caboclos: os homens, vestidos com trajes de palha de milho, com flautas e bastões, dançam no local durante toda a noite.




FONTES CONSULTADAS:
Prof. Dr. Edson Hely Silva - UFPE

AS COMUNIDADES indígenas de Pernambuco. Recife: Instituto de Desenvolvimento de Pernambuco-Condepe, 1981.

SÁ, Marilena Araújo de. "Yaathe" é a resistência dos Fulni-ô. Revista do Conselho Estadual de Cultura, Recife, Ed. especial, p.48-54, 2002.

SOUZA, Vânia Rocha Fialho de Paiva e. As fronteiras do ser Xukuru. Recife: Fundaj. Ed. Massangana, 1998.

domingo, 12 de abril de 2009

BRINCAR DE ÍNDIO? CANTE OUTRA MÚSICA!!

FELIZMENTE, ALGUNS EXCELENTES COMPOSITORES TÊM SE DEDICADO A CAUSA INDÍGENA EM SUA ESSÊNCIA, DEIXANDO O FOLCLORISMO DE LADO. EIS ALGUMAS ÓTIMAS SUGESTÕES DE MÚSICAS QUE RETRATAM O ÍNDIO DE FORMA LEGÍTIMA. BOA AULA!


* Chegança - Antonio Nóbrega
* Curumim chama Cunhatã que eu vou contar - Jorge Benjor
* Brasil Nativo - Dorival Caymmi

Tu Tu Tu Tupi (Hélio Ziskind)


Tu Tu Tu Tu
Tu Tupi
Todo mundo tem um pouco de índio
dentro de si
dentro de si
Todo mundo fala língua de índio
Tupi Guarani
Tupi Guarani
E o velho cacique já dizia
tem coisas que a gente sabe e não sabe que sabia
e ô e ô
O índio andou pelo Brasil
deu nome pra tudo que ele viu
Se o índio deu nome, tá dado!
Se o índio falou, tá falado!
Se o índio chacoalhou tá chacoalhado!
e ô e ô
Chacoalha o chocalho
Chacoalha o chocalho
vamos chacoalhar
vamos chacoalhar
Chacoalha o chocalho
Chacoalha o chocalho
que índio vai falar:
Jabuticaba Caju Maracujá
Pipoca Mandioca Abacaxi
é tudo tupi
tupi guarani
Tamanduá Urubu Jaburu
Jararaca Jibóia
TatuTu Tu Tu
é tudo tupi
tupi guarani
Arara Tucano Araponga Piranha
Perereca Sagüi Jabuti Jacaré
Jacaré Jacaré
quem sabe o que é que é?
- ...aquele que olha de lado
...é ou não é?
Se o índio falou tá falado
se o índio chacoalhou tá chacoalhado
e ô e ô
Maranhão Maceió Macapá
MarajóParaná Paraíba
Pernambuco Piauí
Jundiaí Morumbi Curitiba Parati
É tudo tupi
Butantã Tremembé Tatuapé
Tatuapé Tatuapé
quem sabe o que é que é?
- ...caminho do Tatu...
Tu Tu Tu Tu
Todo mundo tem...

LEI 11.645/08: OBRIGAÇÃO NÃO, DEVER MORAL!

Antes da sanção desta lei, já vigorava no país uma outra, a Lei 10.639/03, que tornava obrigatório o ensino acerca da Cultura Afro-brasileira no país. Isso não acabou com o preconceito e a discriminação sofridos pelos negros por todo país, que se auto proclama inter-racial, todavia, serviu para chamar a atenção dos mais desavisados acerca das contribuições e dos grandes serviços prestados pela nação africana. Agora, a lei corrigiu a injustiça de excluir de seu texto o ensino sobre os nativos destas terras tropicais, que ainda pairam no imaginário de alguns (inclusive de muitos educadores) como a lenda do Curupira, Saci e seres afins. Pode ser este o primeiro passo para que esta terra se torne para seus legítimos filhos uma "Mãe Gentil!"
(Curumim do Tocantins)


FAÇA VALER A LEI 11.465/08! ANTES DE "LER" O TEXTO COMO UMA OBRIGAÇÃO, REFLITA, E ACREDITE QUE TEMOS O DEVER MORAL DE ENSINAR AS NOVAS ( E NÃO TÃO NOVAS) GERAÇÕES ACERCA DOS NOSSOS ABORÍGINES (mas, sem a Xuxa desta vez, por favor)! (grifo meu)


História e culturas indígenas no currículo
escolar: breves notas para discussões

Edson Silva*

A ignorância sobre os índios

Ainda que ocorridas em diferentes contextos e separadas por um tempo bastante longo, duas situações são bastante ilustrativas a respeito do desconhecimento reinante sobre os índios no Brasil. Na primeira delas, conta-se que quando Claude Levi-Strauss se preparava para vir onde Brasil colaboraria na fundação da USP no início da década de 1930, ele teria procurado o embaixador do Brasil na França. Ao buscar informações sobre os índios, ouviu da autoridade diplomática brasileira, que não mais existiam, teriam todos sido dizimados com a colonização. Se Levi-Strauss tivesse acreditado no embaixador, a Antropologia e as Ciências Humanas e Sociais não herdariam a vastíssima obra sobre os povos nativos, a significativa contribuição do considerado fundador do estruturalismo, ainda vivo, e reconhecidíssmo como um dos maiores, ou senão o maior antropólogo contemporâneo.
A segunda situação ocorreu comigo há poucos dias envolvendo uma colega de trabalho. Em meio a uma conversa, ela me relatou que estava trazendo “um índio” para conversar com sua turma de alunos/as em sala de aula. Como expressei a minha desaprovação pela iniciativa, por achá-la sempre folclórico em razão da forma que geralmente é feito o convite e como se dá essa presença de “um índio” na escola, a colega procurou me tranqüilizar afirmando: “Mas ele já é mais civilizado”! Diante dessas palavras a minha perplexidade foi tamanha que apenas silenciei.
Os povos indígenas conquistaram nas últimas décadas considerável visibilidade enquanto atores sociais em nosso país. Mas, por outro lado, é facilmente contestável o desconhecimento, os preconceitos, os equívocos e as desinformações generalizadas sobre os índios, inclusive entre os educadores. Essas duas situações aqui relatadas ilustram muito bem como os preconceitos sobre os índios são expressos cotidianamente pelas pessoas. E o mais grave: independe do lugar social e político que ocupem! O que dizer então do universo das pessoas pouco letradas, do senso comum da população em nosso país?
Sem dúvidas é no âmbito da escola/educação formal, em seus vários níveis hierárquicos, que se pode constatar a ignorância que resulta as distorções a respeito dos índios. A Lei nº. 11.465/08 de março/2008 que tornou obrigatório o ensino sobre a história e culturas indígenas, ainda que careça de maiores definições, objetiva a superação dessa lacuna na formação escolar. Contribuindo para o reconhecimento e a inclusão das diferenças étnicas dos povos indígenas, para se repensar em um novo desenho do Brasil em sua diversidade e da pluralidade culturais.
As responsabilidades e desafios para implementação da Lei nº. 11.465/08
Para a implementação da Lei nº. 11.465/08 é preciso ter claro os diferentes níveis de responsabilidades, bem como os desafios para sua real efetivação. No âmbito federal o MEC tem uma tarefa extremamente importante: além de acompanhar, e quem sabe até onde for de sua alçada, fiscalizar a execução da Lei. Mas, sobretudo também, produzir subsídios didáticos destinados aos vários níveis do ensino para colocá-los a disposição principalmente de educadores/as nas escolas públicas.
No nível das universidades públicas e privadas se faz necessário à inclusão de cadeiras sobre a temática indígenas no âmbito das Ciências Humanas e Sociais, bem como nos demais campos do conhecimento acadêmico incluir a discussão dos saberes indígenas. A exemplo da área da Matemática, onde podem ser discutidos os saberes matemáticas de povos culturalmente distintos do pensamento hegemônico ocidental.
Caberão as secretarias estaduais e municipais de educação disponibilizar, favorecer o acesso aos subsídios produzidos pelo MEC, e ainda também produzirem materiais didáticos enfocando as realidades locais dos povos indígenas. É de fundamental importância ainda capacitar os quadros técnicos dessas instâncias governamentais, no âmbito do combate aos racismos institucionais.
Ainda nas esferas governamentais locais se faz necessário a promoção de seminários, encontros de estudos, etc. sobre a temática indígena para professores/as e demais trabalhadores/as na educação.


_____________________________
*Doutor em História Social pela UNICAMP. Mestre em História pela UFPE. Pesquisador do Laboratório de Estudos em Movimentos Étnicos-LEME/UFCG; do Núcleo de Estudos e Debates sobre a América Latina-NEDAL/UFPE; e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade-NEPE/UFPE. Leciona História no Col. de Aplicação/CENTRO DE EDUCAÇÃO-UFPE.
E-mail: edson.edsilva@gmail.com

HISTÓRIA, POVOS INDÍGENAS E EDUCAÇÃO:
(RE)CONHECENDO E DISCUTINDO A DIVERSIDADE CULTURAL

Foto: Prof. Edson Silva com Jeysiane Xukuru - Aldeia Sucupira - Serra do Ororubá

(Pesqueira-PE) 31/01/2009


Edson Silva*


RESUMO


Este texto discute as visões estereotipadas, os equívocos e os preconceitos comumente existentes sobre os “índios”, propondo uma crítica a história tradicional, bem como sugestões para uma nova abordagem sobre os povos indígenas e indicando subsídios para o estudo da temática indígena, na perspectiva do reconhecimento da diversidade étnica em nosso país.

Introdução: “ainda existem índios”?!


O que sabemos sobre os índios no Brasil? A dúvida ou a resposta negativa a essa pergunta ainda é ouvida da imensa maioria da população, na escola e até mesmo na universidade. Os dados mais recentes contabilizam no Brasil 225 povos indígenas que falam cerca 180 línguas distintas.


Os dados do IBGE/2005 apontam que em 10 anos, na década de 1990, a população indígena cresceu 150%! Passando de 234.000 mil para cerca de 734.000 indivíduos, que habitam todas as regiões do Brasil. Essa totalização talvez não tenha incluído os chamados índios isolados que vivem em algumas localidades da Região Norte, mas contabilizou significativos contingentes de índios que moram nas periferias urbanas próximas às aldeias e nas capitais, expulsos em sua grande maioria pelo avanço do latifúndio sobre as terras indígenas. De acordo ainda com as mesmas estimativas oficiais, no Nordeste moram 170.000 índios, mais de 20% da população indígena no país. Em Pernambuco é contabilizada atualmente uma população indígena em torno de 38.000 indivíduos (FUNASA/ SIASI, 2006), formada pelos povos Fulni-ô (Águas Belas), Xukuru do Ororubá (Pesqueira e Poção), Kapinawá (Ibimirim, Tupanatinga, Buíque), Kambiwá (Ibimirim), Pipipã (Floresta), Pankará (Carnaubeira da Penha), Atikum (Carnaubeira da Penha e Floresta), Tuxá (Inajá), Pankararu (Tacaratu, Petrolândia e Jatobá), Truká (Cabrobó) e os Pankauiká (Jatobá), estando esse último povo reivindicando o reconhecimento oficial. O desconhecimento sobre a situação atual dos povos indígenas, está associado basicamente à imagem do índio que é tradicionalmente veiculada pela mídia: um índio genérico com um biótipo formado por características correspondentes aos indivíduos de povos nativos habitantes na Região Amazônica e no Xingu, com cabelos lisos, pinturas corporais e abundantes adereços de penas, nus, moradores das florestas, de culturas exóticas, etc. Ou também imortalizados pela literatura romântica produzida no Século XIX, como nos livros de José de Alencar, onde são apresentados índios belos e ingênuos, ou valentes guerreiros e ameaçadores canibais, ou seja, “bárbaros, bons selvagens e heróis” (Silva, 1994).
Ainda nas universidades, de um modo geral, o índio é lembrado, afora o primeiro momento do “Descobrimento” em 1500, no início da Colonização. E nas escolas, no rosário das datas comemorativas, quando no “Dia do Índio”, comumente as crianças das primeiras séries do Ensino Fundamental são enfeitadas e pintadas à semelhança de indígenas que habitam os Estados Unidos, e estimuladas a reproduzirem seus gritos de guerra!
Até recentemente nos estudos da História do Brasil, o lugar do índio era na “formação” da chamada nacionalidade brasileira. Depois de desaparecer nos textos sobre o “Descobrimento do Brasil” nos livros didáticos, o índio voltaria a ser lembrado nos estudos da Literatura da época do Romantismo no Brasil. O “índio” até bem pouco tempo estudado na História do Brasil ou em Estudos Sociais era único, “Tupi-Guarani” em todas as “tribos”, morava em “ocas” e “tabas”, era antropófago, preguiçoso e existente apenas no Xingu ou em remotas regiões do Norte do país.
A desinformação, os equívocos e os pré-conceitos motivam a violência cultural contra os povos indígenas. Resultado das idéias eurocêntricas de “civilização”, do etnocentrismo cultural e da concepção evolucionista da História, onde, no presente, os indígenas são classificados como “primitivos” possuidores de expressões culturais exóticas ou folclóricas ainda preservadas, mas que determinadas a serem engolidas pelo “progresso” da nossa sociedade capitalista.
Cabe ao/a professor/a de História, aos/as educadores/as de uma forma em geral, buscar superar tal situação, atualizando seus conhecimentos sobre os povos indígenas, para compreendê-los como sujeitos participantes na/da história, em uma perspectiva do (re)conhecimento que vivemos em um país pluricultural, plurilinguísitco e com uma sóciodiversidade enriquecida pelos povos indígenas. Para isso somos convidados/as a atualizar nossos conhecimentos, a partir das recentes discussões sobre o tema e a produção de subsídios didáticos que incorporam essas discussões.


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*Doutor em História Social pela UNICAMP. Mestre em História pela UFPE. Leciona História no CENTRO DE EDUCAÇÃO/Col. de Aplicação/UFPE. Pesquisador da história indígena em Pernambuco, com vários artigos publicados sobre o tema. Assessor para área de História na formação dos/as professores/as indígenas em Pernambuco e no Projeto PROFORMAÇÃO/MEC/SEDUC-PE. E-mail: edson.edsilva@gmail.com

sábado, 11 de abril de 2009

ATÉ QUANDO VAMOS FINGIR QUE ELES NÃO EXISTEM?

Eles não habitam o Xingu ou a Floresta Amazônica, não andam nus, não comem grilos e não querem apito! Eles querem e precisam de RESPEITO!!
Cacique Marcos Xukuru - Xukuru do Ororubá (Pesqueira-PE)

Justiça condena 26 Xukuru à prisão em Pernambuco


Desde a retomada da luta pela terra, assassinatos e perseguições visam acabar com a organização do povo.


No dia 30 de janeiro, a Justiça Federal de Pernambuco condenou 26 pessoas do povo Xukuru com penas que variam de 1 a 10 anos de prisão e pagamento de multas que chegam a R$50 mil. A condenação é em função de conflitos entre indígenas que ocorreram em fevereiro de 2003, na vila de Cimbres, dentro de suas terras, próxima a Pesqueira, no agreste Pernambucano.
Os advogados dos indígenas condenados já recorreram da decisão ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 5ª Região, em Recife. Entre outros questionamentos, eles tratam do cerceamento do direito de defesa, pois houve empecilhos para que todas as testemunhas de defesa a que tinham direito fossem ouvidas, e também o tamanho das penas, considerado exagerado.
Os Xukuru aguardam a decisão do TRF em liberdade, apesar disso, a decisão da Justiça já criou um clima de preocupação na comunidade, que há décadas enfrenta perseguições. Neste mesmo processo, a justiça ainda se pronunciará sobre outras cinco pessoas, entre elas o cacique Marcos Luidson, conhecido como Marquinho Xukuru. Segundo o cacique, o povo está muito preocupado, pois essa ação visa desestruturar a organização dos Xukuru para que os interesses dos adversários históricos do povo na região sejam alcançados.
No processo no qual os 26 indígenas foram condenados, há 35 Xukurus como réus (sendo que um faleceu). Ele trata de um conflito que ocorreu no dia 7 de fevereiro de 2003, quando centenas de Xukuru participaram de um conflito na vila de Cimbres. Naquele dia, dois jovens indígenas, Josenilson José dos Santos (Nilsinho) e José Adenilson Barbosa da Silva (Nilson), foram assassinados durante um atentado contra o cacique Marcos Xukuru, que conseguiu escapar.
O crime revoltou a comunidade, que se voltou, incontrolada, contra o assassino José Lourival Frazão (Louro Frazão), indígena Xukuru, e um pequeno grupo de indígenas. Frazão e algumas famílias Xukuru apoiavam ações dos fazendeiros invasores da terra do povo.
O modo como a Justiça Federal conduziu a investigação e o processo judicial sobre o conflito foi questionado por diversos grupos de defesa dos Direitos Humanos de Pernambuco, que apontaram um posicionamento da Justiça contra o povo Xukuru. No conflito, quatro Xukuru do grupo majoritário foram baleados. No entanto, esses casos não foram investigados pela Justiça. Em março de 2006, Frazão foi condenado pelo assassinato de um dos jovens a 12 anos de prisão. Desde dezembro de 2006, cumpre a pena em regime semi-aberto.
Os advogados de defesa dos Xukuru também questionam a falta de isenção no julgamento. Embora seja pública a tentativa do grupo dissidente de acusar as lideranças tradicionais do povo Xukuru – como retaliação pela posição do povo de não aceitar a divisão do território – as autoridades judiciárias não teriam agido com necessária cautela em um ambiente marcado por disputas políticas, econômicas e especificidades culturais.
Na avaliação do antropólogo Augusto Laranjeiras, o modo como o caso foi tratado, primeiramente pela imprensa e depois pela Justiça, não respeitou características próprias dos Xukuru, ao considerar que havia duas “facções” em conflito. Segundo Laranjeiras, não eram dois grupos similares em uma mesma condição. De um lado havia um sistema interno social estruturado e, de outro, um grupo transgressor dos princípios do povo, sem legitimidade interna.


Contra o desenvolvimento Xukuru


O cacique Marcos destaca três motivos para a perseguição aos Xukuru: a insatisfação dos adversários deste povo, por conta da conquista do território (os Xukuru ocupam 97% dos 27 mil hectares da terra, homologada em 2001); a crescente importância política dos Xukuru nas eleições locais e o interesse econômico de antigos invasores de terras, que agora têm o apoio de um pequeno grupo Xucuru, em promover turismo religioso na região.

Perseguições e assassinatos


Para entender o sentimento da comunidade, é necessário resgatar o histórico de perseguições e crimes que vitimaram os Xukuru, desde que eles reforçaram a luta para reconquistar seu território, na década de 1980. Nos últimos 17 anos, além de Nilson e Nilsinho, outras quatro pessoas foram assassinadas em função dessa luta (veja a seguir). Dentre os assassinos, apenas um foi preso, mas foi encontrado morto na prisão. Por outro lado, diversos Xukuru foram investigados e presos acusados por estas mortes. Além de serem acusados pelos assassinatos de seus aliados, nos últimos anos alguns Xukuru foram acusados e investigados em outros processos. Atualmente o vereador Aguinaldo Xukuru chegou a ficar preso durante 30 dias, e os indígenas Rinaldo e Edmilson estão presos, acusados de envolvimento no assassinato do filho de Chico Quelé.
1992 - Everaldo Bispo dos Santos, filho do pajé Zequinha. Assassinado a tiros enquanto buscava cipó em uma mata. O autor dos disparos, o não-índio Egivaldo de Farias, nunca foi levado a Júri.
1995 – Geraldo Rolim da Mota Filho, Procurador da Funai, atuava na defesa da demarcação da terra Xukuru. Foi assassinado com tiros pelas costas, na cidade de Umbuzeiro, na Paraíba. Apesar de relacionado à questão fundiária indígena, o caso foi julgado na Justiça Comum. O autor dos disparos, fazendeiro Theopompo Siqueira de Brito foi absolvido por “legítima defesa”.
1998 – Francisco Araújo – Chicão Xukuru, cacique do povo. Assassinado a tiros por um homem desconhecido. Ele recebia ameaças de morte e também havia sido testemunha de acusação no caso do assassinato do procurador Geraldo Rolim. Na época, a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF) em Pernambuco trabalharam, principalmente, com as hipóteses de crime passional ou de disputa interna de poder. A partir da atuação de um departamento da PF de fora dos quadros pernambucanos, o inquérito identificou como responsáveis um pistoleiro (encontrado morto no Maranhão) e o mandante, o fazendeiro José Cordeiro de Santana (Zé de Riva), invasor da terra indígena, morto na carceragem da PF na
véspera de seu depoimento.
2001 – Francisco Santana – Chico Quelé, liderança. Assassinado a tiros dentro da terra Xukuru. Novamente a PF e o MPF em Pernambuco privilegiaram a hipótese de disputa interna de poder como motivo para o crime. No inquérito, opositores de lideranças tradicionais foram testemunhas e importantes documentos desapareceram. Como conclusão, foram acusadas as lideranças Zé de Santa e Dandão (que ficou preso por quase um ano), que aguardam em liberdade o júri sobre o caso.

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Texto gentilmente cedido pelo Prof. Dr. Edson Hely Silva (UFPE)
Fonte: CIMI (Conselho Indigenista Missionário)

Lei torna obrigatório estudo dos povos indígenas



Foi sancionada desde o dia 10/3/2008, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei 11.645/08, que inclui no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.



A Lei está publicada na edição desta terça-feira (11/03) do Diário Oficial da União.


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